A luxação é a saída completa da cabeça do úmero da glenoide, quase sempre para a frente, depois de uma queda ou de um movimento forçado com o braço aberto. O problema é que o primeiro episódio costuma rasgar o labrum e os ligamentos que seguram a articulação, e por isso o ombro pode continuar instável. Em jovens, a recidiva passa de metade dos casos.

O Dr. Bernardo Catão Queiroz, em Belo Horizonte, avalia a lesão deixada pela luxação, a perda óssea e o risco de novos episódios para indicar reabilitação ou estabilização cirúrgica.
Por que o ombro sai do lugar
O ombro é a articulação com maior amplitude do corpo e, por isso, a menos contida pelo osso. Quem o segura é o labrum, uma borda de fibrocartilagem que aprofunda a glenoide, mais os ligamentos e a cápsula. Na luxação anterior, o labrum se solta da borda da glenoide (lesão de Bankart) e a cabeça do úmero pode sofrer uma impressão óssea (lesão de Hill-Sachs).
Existe também a instabilidade sem trauma, em pessoas com frouxidão ligamentar generalizada, em que o ombro subluxa em várias direções. Esse grupo se trata quase sempre com fortalecimento, não com cirurgia.
Como reconhecer instabilidade depois da primeira luxação
- Sensação de que o ombro vai sair ao abrir o braço e girar para fora, como no gesto de arremesso
- Novos episódios de luxação ou de subluxação com traumas cada vez menores
- Dor profunda ao fazer força com o braço na altura do ombro
- Falta de confiança no braço em esportes de contato, musculação ou natação
- Dormência passageira no braço logo depois do episódio, que precisa ser avaliada
Exames e avaliação da perda óssea
Radiografias em incidências específicas confirmam a redução e mostram fraturas associadas. A ressonância magnética, de preferência com contraste intra-articular, avalia o labrum, os ligamentos e a cápsula. A tomografia com reconstrução 3D mede a perda óssea da glenoide e do úmero, dado que define a técnica cirúrgica.
Tratamento após a primeira luxação
Depois da redução, o ombro fica imobilizado por um a três semanas e a fisioterapia começa cedo, com foco em fortalecer o manguito rotador e os estabilizadores da escápula. Em pessoas acima dos 30 anos e com pouca demanda esportiva, esse tratamento costuma bastar.
Em atletas jovens, principalmente de esportes de contato ou de arremesso, a chance de repetir é alta e a estabilização cirúrgica precoce é uma opção legítima, discutida caso a caso.
Cirurgias de estabilização
O reparo de Bankart por artroscopia recoloca o labrum e tensiona a cápsula com âncoras, por incisões de menos de um centímetro. É a escolha quando a perda óssea é pequena. Quando a glenoide perdeu parte da borda ou as lesões ósseas se encaixam uma na outra, a técnica de Latarjet transfere um fragmento de osso com tendão para a frente da glenoide e bloqueia a saída da cabeça do úmero.
A escolha entre as duas depende da medida da perda óssea, do número de luxações, do esporte e da idade.
Recuperação e retorno ao esporte
Tipoia por três a quatro semanas, movimentos protegidos até a sexta semana e fortalecimento progressivo a partir daí. Corrida e academia sem carga no ombro voltam em torno de seis a oito semanas; esportes de contato e de arremesso esperam de quatro a seis meses, após testes de força e de confiança.
Perguntas frequentes sobre luxação e instabilidade do ombro
Depois da primeira luxação do ombro, preciso operar?
Depende da idade e da atividade. Acima dos 30 anos e sem esporte de risco, a fisioterapia costuma resolver. Em jovens atletas, a taxa de nova luxação é alta e a cirurgia precoce pode ser indicada depois de uma conversa sobre riscos e benefícios.
Luxação do ombro pode voltar a acontecer?
Sim, e é o principal problema. Abaixo dos 25 anos a recidiva pode passar de 70 por cento quando o tratamento é só conservador. Cada novo episódio aumenta a perda óssea e torna a cirurgia mais complexa.
Qual é a diferença entre Bankart e Latarjet?
O Bankart artroscópico repara o labrum e a cápsula com âncoras e serve quando há pouca perda óssea. O Latarjet transfere um bloco de osso para a frente da glenoide e é indicado quando há perda óssea importante ou falha de reparo prévio.
Posso colocar o ombro no lugar sozinho?
Não é recomendado. A manobra sem avaliação pode fraturar o úmero ou lesar nervos e vasos. Procure atendimento de urgência, onde a redução é feita com analgesia e confirmada por radiografia.
Fontes e leitura complementar
- Chronic Shoulder Instability, OrthoInfo, Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (em inglês)
- Dislocated shoulder, NHS, serviço de saúde britânico (em inglês)
- Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC)